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Apenas uma relíquia do Plioceno...

domingo, março 20, 2005

Minha amiga é sapatão

NO MESMO DIA em que o poderoso Severino Cavalcanti recebeu a comitiva dos gays na Câmara, recebi eu a notícia de que a minha amiga Kelly (nome mais ou menos fictício) virou sapo. Quer dizer, sapa. Descobriu que gosta de mulher. Lésbica. Sapatão. Cola velcro. Bolacha. Põe a aranha pra brigar. Pasta no carpete.

Não a condeno. Eu também me sinto irremediavelmente atraído pelo sexo feminino (e essa, aliás, é a causa de 80% dos meus problemas). Mas tem muita gente que condenaria a minha amiga, enquanto eu, apesar de não resistir a fazer uma piada de gaúcho de vez em quando, me coloco no "S" do trinômio. "S" de "simpatizante", bem-entendido. Não de "Severino".

Portanto, eu e a Kelly gostamos de mulher. E o que nos faz diferentes? Claro, claro, no lugar onde ela tem um X eu tenho um Y. Essa é uma diferença. Ela tem peitos, eu não. E eu tenho um pênis onde ela tem um clitóris. Pra começo de conversa.

Bem, essas duas últimas e, diria, mais salientes diferenças não são assim tãão diferentes. Meus mamilos surgiram provavelmente como sub-produto do plano embrionário que produziu seios na Kelly para alimentar suas crias. Guarde o final da frase anterior para daqui a pouco. E o clitóris da Kelly surgiu provavelmente como subproduto do plano embrionário que produziu a minha potente e enorme (difícil resistir à piada aqui) lança. Ou seja, o instrumento de prazer sexual por excelência das lésbicas não tem mais função evolutiva do que os meus ridículos mamilos, se você for um adaptacionista ferrenho.

Mas é aqui que os adaptacionistas ferrenhos se ferram (dãã!). Como se ferram também os que, como meu amigo Severino, insistem em achar que não há nada "natural" em ser baitola, ou dyke. Em um de seus raros momentos de lucidez ao criticar o "programa adaptacionista", que ele via mais ou menos como uma conspiração, o paleontólogo americano Stephen Jay Gould argumentou que o clitóris, por subproduto que seja, foi obviamente cooptado para o sexo em algum momento do nosso passado hominóide. A seleção natural não precisou realizar esse exame ginecológico tão rigoroso; há coisas que acontecem sem a sua chancela. Assim como comportamentos homossexuais, apesar de não serem "adaptações" óbvias, do jeito que a gente aprende, têm seu valor evolutivo.

E? Bem, eu quero chegar no seguinte ponto: dizer que ser lésbica é "anti-natural", como adorariam a direita e os criacionistas, é ignorar a boiologia, quer dizer, a biologia. É um argumento que não sobrevive ao mínimo escrutínio científico e que, portanto, não deveria ter lugar no Congresso brasileiro.

A princípio, evoluímos todos para foder adoidado, ter muitos filhos, roubar toda a comida (ou grana ou emprego) dos nossos oponentes e, no caso dos machos, executar sumariamente machos que não sejam da sua panelinha ou que tenham tido o prazer de foder adoidado com o seu harém. À exceção da última, não fazemos nenhuma dessas coisas. Muita gente opta por não ter filhos. Muita gente opta por ser honesta. E muita gente, até mesmo em São Paulo, opta por não sair por aí matando os outros.

Esqueça a lei. Há um valor evolutivo em ser legal. E, no nosso caso, há valores culturais também, que podem ou não acabar incluídos no mélange genético da espécie um dia (tem quem diga que o valor cultural de cozinhar, por exemplo, mudou a biologia humana. E os argumentos são bons). Ninguém diria que um sujeito pintoso, brilhante e cheio da grana como Steven Pinker é uma "aberração" ou um caso típico de maus genes porque ele optou por não ter filhos. E, se você for levar o adaptacionismo a ferro e a fogo, é isso o que ele é.

Portanto, fazer uma opção por sexo com gente do mesmo sexo também é um ato de darwinocídio, algo que não teria sido autorizado pela seleção natural a surgir, pra começo de conversa. Será? Vejamos o que acontece com nossos parentes mais próximos, os chimpas. Na verdade, com nosso parentes mais próximos não tão próximos, os bonobos (Pan paniscus). Entre as fêmeas da espécie, colar velcro é uma etapa obrigatória na vida. Os africanos até deram um nome ao ato: "huka-huka". Fêmeas jovens geralmente são seduzidas pelas mais velhas e têm longos relacionamentos homossexuais com estas. Que um dia acabam, quando essas fêmeas jovens resolvem procriar.

Graças em parte ao huka-huka, as tensões sociais entre os bonobos são muito menores que entre chimpanzés e humanos. O homossexualismo, entre elas, serve para formar alianças entre fêmeas. E impedir coisas bem conhecidas nas sociedades das duas outras espécies de primatas: estupros, exploração sexual de fêmeas, dominância e hierarquia patriarcal que leva à formação de gangues, a raids e, no nosso caso, a guerras.

Chimpanzés também praticam homossexualismo, assim como babuínos e diversos mamíferos não-primatas. Segundo o biólogo e biroba Bruce Baghemil, tem até ursas lésbicas que criam filhotes em "casal". Longe de ser aberrante, é um comportamento que tem função em sociedade. Quanto mais complexa uma sociedade animal, nota-se, maior a possibilidade de o homossexualismo evoluir.

Evoluir, sim. Está nos genes, embora ninguém saiba ainda em qual(is). É algo universal demais para ser apenas uma questão cultural -- e quem discorda por favor me apresente uma sociedade só de héteros. O Rio Grande do Sul não vale... No caso das sociedades humanas e em homossexiais que cortam de um lado só, fica a questão: qual será o trade-off evolutivo? O que o homossexualismo oferece de vantagens (além de bom gosto para decorar a casa) para que possa seguir invisível à seleção natural? Adaptação strictu sensu? Duvido. Subproduto de alguma outra coisa, ou de algum comportamento estritamente adaptativo? Aposto que sim. E não há nada errado nisso. Não mais do que curtir os peitos da sua namorada (OK, ou "namorado" -- satisfeita, bicha?), mesmo que não seja para matar a fome.

4 Comments:

Anonymous Catarina Chagas said...

Olá!
Sou repórter do site Ciência Hoje On-line e estou escrevendo uma matéria sobre blogs científicos. Achei interessante essa página e gostaria de trocar idéias com o seu criador misterioso...

Poderíamos conversar por e-mail mesmo, seria possível?

Desde já, agradeço a atenção.

Abraços,
Catarina Chagas

5:15 AM  
Blogger Paranthropus said...

Acho que sim. Deixe o seu e-mail pra mim. Aviso logo que eu não sou exatamente um cientista, no entanto, e sim um curioso mais ou menos informado.

Ah, e tem um erro no post acima. Eu não sei se o homossexualismo é "invisível" à seleção natural. Talvez ele seja, mas não dá pra dizer que sim ou que não. O que eu acho, sim, é que existe um trade-off que ninguém sabe qual é.
Pistas?

5:28 AM  
Anonymous Anônimo said...

Que bom que você pode colaborar!
Meu e-mail é ac.chagas@terra.com.br

Abs,
Catarina

4:53 AM  
Anonymous  said...

Muito bom o post!!
Sensacional!

4:13 PM  

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