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quinta-feira, janeiro 01, 2009

Um fator ignorado do desmatamento: uma proposta de investigação

ABSTRACT
O ciclo das commodities, como madeira, carne bovina e soja tem sido apontado estudo após estudo como fator-chave para a compreensão da dinâmica do desmatamento na Amazônia. Essa dinâmica segue geralmente o modelo do "boom-colapso", descrito por Celentano e Veríssimo (Celentano e Veríssimo, 2007). Fatores outros, como a presença de estradas e de obras de infra-estrutura (Nepstad, 2000, Laurance, 2001) têm sido considerados vetores cruciais da atividade, bem como assentamentos de reforma agrária (Brandão Jr. & Souza Jr., 2006) . Este artigo vem propor um vetor até aqui ignorado e igualmente importante: a garrafa térmica.

INTRODUÇÃO
A garrafa térmica é o principal fator de mobilidade do gaúcho (Veríssimo, 1981). Ela permite manter a água quente por longos períodos de tempo e em praticamente qualquer lugar, o que por sua vez torna possível ao gaúcho exercer seu ethos não apenas em casa como também em praças, na praia e em virtualmente qualquer lugar do Brasil ou do mundo onde se possa conseguir mate e um jeito de fazer fogo. Sua popularização, concomitante ao esgotamento das terras para produção agropecuária no Rio Grande do Sul, permitiu a levas de gaúchos emigrarem para novas fronteiras agrícolas - lugares onde nem ao menos havia eletricidade, como Rondônia, Mato Grosso do Sul e o norte de Mato Grosso.

Uma vez que os gaúchos estão por trás de parte substancial da abertura de novas áreas para a produção de carne e grãos na Amazônia, replicando o modelo de ocupação de terras em seu Estado nativo, argumentamos que a garrafa térmica (ou simplesmente "térmica"), ao possibilitar a fixação de colonos sul-riograndenses, tem dado uma contribuição involuntária e de dimensões até agora desconhecidas ao maior crime ambiental praticado na história recente do Brasil, que já eliminou 700 mil quilômetros quadrados de floresta.

MATERIAL E MÉTODOS
Diante da falta de dados estatísticos sobre a produção, a venda e o uso de garrafas térmicas cruzados com os dados de desmatamento do Prodes e de demografia do IBGE, o autor usou uma abordagem qualitativa, lançando mão de recursos disponíveis na internet.


A figura abaixo mostra o cruzamento de um mapa de satélite da Amazônia obtido no Google Earth com a lista espacializada de representantes comerciais da Invicta, uma das mais importantes marcas nacionais de garrafa térmica.




O padrão de distribuição espacial da venda de garrafas térmicas chama atenção imediatamente por se sobrepor não apenas a zonas povoadas, mas por ter uma coincidência quase perfeita com o chamado Arco do Desmatamento. Impressionante é ver como as garrafas térmicas ocupam uma linha reta ao longo da BR-364, em Rondônia - o Estado mais gaúcho e mais desmatado da Amazônia. Como esperado, também se distribuem ao longo da BR-163, da Transamazônica e da Belém-Brasília, na porção leste do Pará.

Das 19 cidades marcadas neste mapa com representação da Invicta, 7 (36%) integram a lista dos 36 municípios campeões de desmatamento. Uma oitava, Brasil Novo, não pôde ser localizada.


DISCUSSÃO E CONCLUSÃO
O presente artigo apresenta apenas uma proposta de investigação, mas um dado intrigante e novo que pode vir a ser útil na formulação de políticas públicas contra o desmatamento e a erosão de biodiversidade que ele enseja. Mais pesquisas e dados quantitativos serão necessários para a confirmação dessa hipótese de trabalho. No futuro, o monitoramento do mercado de garrafas térmicas poderá ser incorporado aos métodos e sistemas de vigilância da Amazônia, como forma de ir além dos alertas em tempo real gerados pelo SAD e pelo Deter e chegar a prever onde ocorrerão desmatamentos futuros.

9 Comments:

Anonymous Curinga said...

kkkk... olha o IgNobel, hein? Em algum buraco na India representantes do govenrno notaram alarmados que o numero de mortes (numero, nao a taxa) local aumentava na mesma proporcao que o consumo de pilhas (tipo Rayovac). Baniram a venda de pilhas.

8:05 AM  
Blogger Sandra Goraieb said...

Adorei! Em especial a parte do "mais pesquisas e dados serão necessários para a confirmação da hipótese"... Acho que poderia ser proposto um cruzamento de dados com a venda de mate nestas áreas. Tornaria mais fidedigna a hipótese.
Olha que pode mesmo ter uma ligação ortográfico semântica: des-MATE-amento, devido ao consumo do mate por lá. Feliz 2009!

11:47 AM  
Anonymous Igor Zolnerkevic said...

Que barbaridade! ahahahah

7:01 AM  
Anonymous Maurício Tuffani said...

E eu que pensava, grosseira e empiricamente, que o problema era o chimarrão! Nada como uma verdadeira abordagem científica. Imagino que a pesquisa possa fomentar políticas públicas, tais como proibir o uso, o transporte e o comércio desse produto em toda a Amazônia Legal e adjacências.

7:15 AM  
Blogger Paranthropus said...

O problema, Tuffa, é o GAÚCHO. A garrafa térmica é apenas um "enabler", já que possibilita ao gaúcho fazer chimarrão em qualquer lugar.

Eu acho que as operações da PF tinham de apreender, além de skidders e motosserras, também garrafas térmicas, cuias e bombas. Imagina o Messias apresentando esses dados na coletiva: "xx tratores, yyy motosserras, zzz milhões em multas e xxx garrafas térmicas apreendidas". Ia ser uma baaarbaridade.

8:48 AM  
Anonymous Cris said...

Baahh, que preconceito, tchê!
E a responsabilidade dos paulistas? Tente cruzar os dados do desmatamento com os de venda de cerveja ruim e terás tua resposta!

5:35 AM  
Blogger Luiz Bento said...

Muito bom. Mandei para um amigo meu da pós-graduação que é gaúcho. Ele vai me xingar hahah

Abraços.

6:27 AM  
Blogger Marky Brito said...

Grande Paranthropus,

Escutei do próprio Veríssimo uma explicação de um estudo dele sobre a erradicação de ratos no armazenamento de grãos através do uso de graxa nas sacas. Os ratos sobem nas sacas, escorregam na graxa e morrem na queda. Entenda, foi no início da carreira dele como pesquisador.

Tua proposta tem muito haver com algumas idéias dele. Por isso, vou dar um jeito de enviar o post pra ele.

Aqui no Acre é um saco ter que desviar dos gaúchos, que teimam em sentar no meio das calçadas para a degustação da bebida. Se no meio tivesse pelo menos uma gaúcha, tudo bem.

Abraços,

Marky

10:51 AM  
Blogger Paranthropus said...

Rapaz, então as coisas desmelhoraram aí. No meu tempo "no" Rio Branco tinha cada gaúcha de parar o trânsito na Avenida Ceará... todos os quatro carros.
(bom, agora minha mulher catarinense vai me matar)

6:25 AM  

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