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terça-feira, junho 13, 2006

Leite, Lattes, Santos-Dumont e "os outros"

ESCREVI ONTEM um longo e-mail a Steven Weinberg, da Universidade do Texas, Nobel de Física em 1979 por ter unificado as forças fraca e eletromagnética. Pedi a ele que comentasse a "triste notícia" da morte de José Leite Lopes, até ontem de manhã o maior cientista brasileiro vivo, inclusive citado pelo americano em sua Nobel Lecture. Queria saber qual era a dimensão da perda "para a ciência mundial". O judeu Weinberg respondeu meia hora depois, com uma franqueza anglo-saxã:

"I don't think I ever met Leite Lopes, but I knew of his work through the physics literature. He was a fine theoretical physicist."

Meu herói mítico, orgulho da minha pátria, foi, portanto, reduzido a "a fine theoretical physicist", assim, sem vaselina, sem condolências. E sem nenhuma piedade. Weinberg reduziu o genial Leite Lopes àquilo que ele de fato foi para a ciência: uma nota de rodapé, um rebite na ponte levadiça do castelo teórico rebocado e ocupado depois por Weinberg e pelo paquistanês Abdus Salam.

Leio na Folha de hoje declarações de alguém se saindo com a tirada máxima da autocomiseração brasileira: pôr a culpa nos outros. Algo do gênero "Leite só não ganhou o Nobel por alguma razão de natureza política e social" blablablá. Conspiração internacional. Preconceito. Só porque o cara era latino. Malditos ianques. Me lembrou algo que o próprio Leite me dissera no ano passado, quando da morte de César Lattes: "Só não ganhou o Nobel porque o sujeito que trabalhava com ele morreu". Ou o que as pessoas dizem em relação aos Wright e Santos-Dumont. Omnis et semper tentando justificar a incompetência nacional com alguma força oculta, alguma marcação de Deus contra o patropi.

Bom, uma vez que o capítulo Deus parece encerrado (veja post abaixo), resta a explicação mais parcimoniosa: o Brasil simplesmente não é um país de grandes inovadores. Nossos gênios da ciência e da tecnologia não são reconhecidos simplesmente porque não existem. E a culpa não é de algum vício inerente à mistura de raças nem ao clima tropical. Crioulos ganharam o Nobel antes. Abdus Salam, do Paquistão. Mario Molina, do México (OK, filho de família rica, estudou na Suíça, mas hispano ainda assim). Dois ou três argentinos. E uma caralhada de indianos.

Trata-se de uma questão meramente aritmética: o país não produz gênios da "ciência mundial" porque não produz cientistas. E não produz cientistas porque ninguém vai à escola. E ninguém vai à escola porque a escola é uma merda. Quantos "quase-Nobel" os EUA produziram? Gazillions. Índia mais pobre do que nós? Alemanha, França? Itália, que curiosamente produz menos ciência que nós? Todos convenientemente citados numa Nobel Lecture e depois esquecidos, ocupando alegremente o lugar que merecem, de rebites no castelo teórico comprado, conquistado ou grilado por outrem. Ciência é assim mesmo. Mas nenhum desses países precisa venerar quase-gênios, quase-inventores, quase-pioneiros.

A melhor homenagem ao Leite seria se parássemos de culpar os outros pela nossa incompetência e resolvêssemos pôr a mão na massa (e as escolas pra funcionar), pra variar um pouco.

7 Comments:

Blogger simplicista said...

Obrigada, Paranthropus. Não agüento o ufanismo exacerbado que toma conta da academia brasileira - aliás, que toma conta de tudo por aqui, do bar ao Planalto. Temos o melhor chope, o melhor queijo, o melhor vinho, a melhor seleção, a melhor música, a melhor personalidade, povo alegre e terra abençoada, cientistas geniais e incompreendidos. Então por que diabos somos país pobre?

11:38 AM  
Blogger Paranthropus said...

O chope é uma merda.

O queijo é risível.

Do vinho, então, nem se fala.

A seleção, como você viu hoje, está longe de ser a melhor. Mas tem bons jogadores...

A música, se não é a melhor, está entre as melhores. Mas música não se discute.

A melhor personalidade? Muito ao contrário, acho, como discutíamos outro dia.

Povo alegre, talvez.

Terra abençoada com certeza. But please refer to "Evidência experimental", abaixo.

Nós somos pobres por culpa dos cariocas. E dos políticos nordestinos.

4:51 PM  
Anonymous danieldf@brown.edu said...

Paranthropus,

Pus meus comentários num post no meu blog (estava com a cabeça quente demais pra postar só aqui): Bonança sem tempestade…?!

[]'s!

8:25 AM  
Anonymous Anônimo said...

O melhor chope??? Do you know what Brazilian beer an a couple having sex in a boat on a lake have in common? They're both fucking close to water. Este e melhor post que ja foi publicado desde o inicio do universo. E sobre a sua atitude de Joselito esquecendo de pontuar as milhas na sua conta, que tal esta? Uma reuniao na quarta-feira pela manha e nao um, mas dois voos de Varig entre a terca e quarta para que eu chegue ate la?

7:13 PM  
Anonymous Andre said...

Reclamar da politica
de concessao do Nobel em Fisica
nao eh caracteristica apenas
de paises subdesenvolvidos.
Pergunte a qlqr fisico japones o que
eles acham disso. Eles tem
grana e trabalham mto, mas nao
sao reconhecidos devidamente,
por razoes mto mais sociologicas
que cientificas.

Lattes eh um exemplo brasileiro das
falhas do comite sueco.
Nao dah para colocar Leite Lopes
e Cesar Lattes no mesmo grupo
de insatisfeitos com Estocolmo.
Primeiro que Lattes aparentemente
nao dava bola pra coisa :-) Segundo,
e mais importante, a contribuicao
de Lattes foi experimental (deteccao
do pion e depois sua producao artificial).
Ou o cara descobriu ou nao
descobriu. E Lattes descobriu.
Descobertas experimentais
sao menos suscetiveis a interpretacoes
de comites que desenvolvimentos
teoricos. Por isso a injustica
com Lattes foi enorme.

Leite Lopes contribuiu
para a unificacao eletrofaca, mas
uma contribuicao pequena
perto dos trabalhos dos ganhadores
do premio.

Nao dah para colocar os dois no mesmo
patamar. Lattes realmente merecia.

Nossa tendencia tupiniquim
de minimizar a importancia
de nossos herois sempre me pareceu
tao irracional qto o ufanismo besta.

3:32 AM  
Blogger Paranthropus said...

André,

Muito bom comentário. Agora, sobre os cientistas japoneses, só posso dizer as seguintes palavras: Hideki Yukawa, Shin-Itiro Tomonaga, Leo Esaki,Masatoshi Koshiba, Kenichi Fukui,Koichi Tanaka - pra ficar só em alguns Prêmios Nobel japoneses, e só nos que trabalham no Japão (fora os radicados nos EUA, como os Tonegawas da vida).

Eu realmente não sei se o Leite se sentia de fato injustiçado por não ter ganho o Nobel. Ele nunca me disse isso, nem nunca li nada atribuído a ele nesse sentido. Provavelmente ignorância minha, porque não sou muito ligado em física.

O que eu estou tentando dizer é que existe uma atitude "pervasiva" entre os brasileiros de achar que o cara valia um Nobel só pelo passaporte verde, e só pelo passaporte verde o Nobel lhe foi negado. Há tons de cinza nisso, como você bem apontou.

4:15 PM  
Anonymous Anônimo said...

A qualidade de nossas escolas é uma merda mas pior do que isso é que não existe oportunidade de se frenquentar escolas, especialmente de nível superior, em número suficiente. Um prêmio nobel é 01 em milhões, especialmente quando se trata de física, se formamos 1000 por ano vai levar mil anos para ter um. É só questão de fazer contas.
Esse é nosso problema, falta de oportunidades nesse campo, no futebol e na música não, por isso acabam surgindo os talentos. Veja, não temos grandes escolas de música ou de futebol neste país.....mesmo assim o talento surge.
Ninguém dá talento para ninguem, o talento é inerente da pessoa, basta haver oportunidade para que ele apareça. .

5:25 AM  

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