Ideias antigas

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Apenas uma relíquia do Plioceno...

quarta-feira, setembro 21, 2005

Paraenses III

SÃO 8H40 NA BR-163. Saio de Santarém num GOL-1000 alugado na locadora mais barata da cidade. O destino é São Jorge, uma comunidade vizinha à Flona do Tapajós. Quatro portas, 16 válvulas, ar-condicionado. Tô bem na fita. "Chego lá em uma hora, troco uma idéia com os cabras e volto antes do almoço".

Planos são inúteis na Amazônia.

9h. Acelero, atento aos postos de gasolina no caminho. Não faz 40 graus ainda, mas certamente já passa dos 30. O ar-condicionado começa a falhar. "Como pode ser verdade uma porra dessas?" Meu olho se volta para o painel. Uma fração de segundo antes, minha visão periférica captara alguma coisa estranha lá. Tipo uma luz vermelha piscando. E tinha mesmo uma luz vermelha piscando. "Temperatura. Essa merda tá esquentando. Deve estar sem água." Penso na cara do sujeito da locadora. No dia anterior, ele me entregou o carro sem uma gota de gasolina. Pelo visto, sem água também. "Filho da puta".

Desligo o ar-condicionado. A luz continua acesa. Paro em frente a um casebre de pau, no meio do nada. Estou literalmente na roça. "Latossolo amarelo. Bom pra plantar soja." Desço e abro o capô. O radiador está imitando cobra. Nem uma gota d'água.

Tem um caboclo me olhando no terreiro. Dou bonsdias e pergunto se ele tem água. "Afinal, estamos na maior bacia hidrográfica do mundo." "Tenho, sim". E dá pra me arranjar? "Dá, sim". Termina de falar e fica parado, me olhando, com cara de "o sr. não quer que eu pegue, quer?" Procuro uma garrafa grande no carro. Não tem. Saio com a pequena. Meu anfitrião está sentado dentro de casa, de costas pra mim. Por sorte, a avó dele se assusta com o forasteiro e me oferece a tal água. Um balde. Uns 10 litros. "Afinal, estamos na maior bacia hidrográfica do mundo".

Jogo água no radiador. O carro está tão quente e seco que estremece inteiro com a primeira vertida. "Caralho. Isso vai dar merda." O celular não pega. Encho o radiador. Viro a chave. Já são 9h3o quase. Agora sim, 40 graus. Decido voltar pra Santarém.

Acelero. "Barulho esquisito. Foda-se". Piso mais. Preciso pelo menos de um lugar com sinal de celular pra ligar pro filho da puta. Ligo o ar-condicionado. A luz acende de novo. "Fodeu."

Encosto. O carro desliga sozinho. E não liga mais. "Preciso sair daqui." Olho para debaixo do motor. "Será que está vazando água?" Não. Não está vazando água. Só óleo. Em quantidades monumentais. "Essa porra tá mijando óleo." Insisto na partida. Ligou. "Pau no cu do cabeçote. Preciso sair daqui."

Agora, as luzes de óleo e de temperatura piscam juntas. "Este carro vai derreter em 5 segundos", avisam. "Foda-se", respondo. "É alugado". "Mas se ele derreter você vai ficar na estrada." Por que elas têm sempre razão? Ligo pro filho da puta da locadora. Combino o resgate. "Dez minutos". Há urubus no céu. "Tão atrás de mim." Encosto num baixio. Fumaça no capô. Bendito celular. "Dez minutos, senior." 40 graus lá fora.

Às 10h20 o filho da puta chega. Me leva pra locadora. Me oferece outro carro. Minha dor de garganta vira dor no corpo. Tô mal na fita. "Merda de ar-condicionado." Pergunto quantos quilômetros tenho pra rodar. "Agora o sr. vai rodar no excesso". Pergunto se tem gasolina. "Na reserva." "Então não quero." Dou um esporro. Ele diz que vai fazer um desconto. Pego o carro. Dói tudo.

Agora estou no quarto. Na cama. Esperando a coristina fazer efeito pra trabalhar. 40 graus lá fora. Não sei se var dar pra dirigir até São Jorge à tarde. "Merda." Mando o gaúcho trabalhar um pouco enquanto descanso. Vamos ver o que vai dar. "Será tuberculose?" O filho da puta do engraxate ontem ficou tossindo meia hora na minha cara. O gaúcho viu a caixa numerada e perguntou se ele era da prefeitura. "Não, sou de Parintins." Gaúcho filho da puta.

A outra opção é gripe. A terceira, malária.

Será malária?

10 Comments:

Blogger Marky Brito said...

Quase fiquei com pena de você. mas já passei por cousa pior por aqui. Tipo, indo para Sinop (de teco-teco) e sofrer uma hemorragia no nariz devido a pressão ruim do avião. Uma semana de cama e nem pude aproveitar o carnaval de lá. Ou daquela vez em Juara quando atolei um fiat uno (sem ar e celular) num areial no meio do nada e fui salvo por dois índios de 2m de altura, cada um com um arco/flecha de 3m, que surgiram do nada também. Ou daquela vez no Acre em que uma aranha me picou...

1:30 PM  
Blogger Marky Brito said...

esqueci de desejar melhoras...

1:33 PM  
Blogger Paranthropus said...

Você é mais encaiporado que eu. Em junho, caí com um carro (também uma merda de gol mil) numa pinguela entre Aripuanã e Colniza. A roda ficou entalada entre dois travessões. Era meia-noite. Não tinha nenhum índio pra me ajudar. Ficamos eu e o motorista meia hora fazendo alavanca com um toco até tirar a porra da roda da pinguela. O carro amassou inteiro. Eu ia pagar, mas o idiota resolveu mudar o preço combinado na hora que me deixou no "aeroporto". Aí paguei o ágio e ele morreu no funileiro, que era bem mais caro. Pior que paulista trouxa na Amazônia é amazônida que acha que pode fazer paulista de trouxa.

Ah, teve a vez no Acre em que eu fui atingido na mão por um fiscal do Ibama ensandecido com uma foice. Tenho a cicatriz até hoje.

2:21 PM  
Blogger simplicista said...

Cês dois parecem o Mel Gibson e a Rene Russo comparando cicatrizes em "Máquina Mortífera".

2:45 PM  
Anonymous Anônimo said...

Carnaval em Sinop? Cáspite!

7:20 PM  
Anonymous Daniel Doro Ferrante said...

Esse é, de LONGE, um dos MELHORES posts e comentários do seu blog, Paranthropus!

Caraca, vc e o "Marky" estão precisando é se benzer! :)

Isso aí só perde, em "excitment" aqui pra Providence, aonde o dia seguinte é tão vazio quanto o de hoje que é tão vazio quanto o de ontem! ;)

Se cuidem! []'s!

8:13 AM  
Blogger Marky Brito said...

Para quem não sabe, em Sinop ocorre um dos melhores carnavais do nortão do MT. Tá certo que as mulheres são quase todas brancas de olhos azuis, mas vá lá. E para completar meu hotel ficava ao lado da praça onde rolava o desfile.

Mas o pior mesmo aconteceu em Juína onte tiver que dormitar com o chefe...no motel improvisado da cidade. Pense num chefe gente fina mas super mão-de-vaca. Isso rendeu um ano de gozaçao no trabalho. E depois ainda tem que agradecer o apoio da Fundação Ford. Cáspite!

10:34 AM  
Blogger Paranthropus said...

Sinop e Sorriso têm as mulheres mais lindas do Brasil pra quem é chegado numa européia, porque têm o genótipo gaúcho, mas um fenótipo sem frescura, um tanto mais amazônico.

Providence... a professora da minha filha no jardim de infância morava em Providence porque achava CAMBRIDGE "too stressful". Imagine.

12:36 PM  
Anonymous Ale Carvalho (Lain) said...

Pôrra, gente, vocÊs querem contar desgraça, é? eu morei 17 anos em Santarém, tá...rs...

10:55 AM  
Blogger Paranthropus said...

Só tenio a lamentar por você, querida. Aquilo lá é um inferno.
cré.

8:27 PM  

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