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Apenas uma relíquia do Plioceno...

quinta-feira, maio 10, 2007

Pirro nuclear


COMEÇA NO ANO DE 2004. Leio em algum lugar na internet um artigo do venerável Ulisses Capozzoli, puta velha do jornalismo científico brasileiro, fazendo uma defesa incondicional da energia nuclear, após a adesão de James Lovelock e do carinha do Greenpeace à causa. Capozzoli conclamava a imprensa e os ambientalistas a "evoluir" em sua posição.
"O Ulisses está gagá", foi minha primeira reação. "Onde ele está com a cabeça?"
Corta para 2006. Estou almoçando no hotel Mercure de Brasília com Tasso Azevedo e Tarcísio Feitosa. Tarcísio acabava de voltar de Washington, onde recebera o Prêmio Goldman por sua militância em favor de unidades de conservação na Amazônia. Ele estava desesperado diante da perspectiva da retomada da usina de Belo Monte, aliás Cararaô, no rio Xingu. A partir daquele momento, eu também me tornei um gagá defensor da energia nuclear.
Qualquer um que olhe para os planos da Eletronorte para a Amazônia, ainda mais em tempos de PAC e bagres atravessados no rabo dos ambientalistas, se converte imediatamente à defesa do átomo. Diferentemente da energia hidrelétrica, a nuclear não emite carbono nem metano, não desfigura a paisagem, não dispara grilagem de terras, não desmata e, o mais importante de tudo, não afeta as douradas.
Os temores em relação a essa tecnologia são quase todos (veja bem: quase) infundados. O mais infundado de todos é o medo da proliferação nuclear. A única nação que realmente constitui uma ameaça atômica ao mundo, por rejeitar tratados de não-proliferação e se dar o direito de aumentar seu número de ogivas, usar o espaço para dispará-las e ainda querer policiar o resto do planeta são os Estados Unidos da América. Esse papo de "rogue states", eixo do mal etc. é conversa para justificar a escalada bélica infindável americana e o monopólio americano do plutônio do mundo.
Você dirá: mas há os acidentes. Chernobyl, Three Mile Island, Biblis (na foto acima). O primeiro, hoje é consenso, não foi culpa da tecnologia nuclear e sim da ditadura soviética. O segundo não fez vítimas justamente porque não aconteceu sob a ditadura soviética. O terceiro não chegou nem a ser um vazamento - e ocorreu no reator mais velho da Alemanha.
Mas... e aquela montanha de lixo? Mais uma desculpa geopolítica barata dos EUA. Paranóicos com o plutônio, os americanos não fazem com seu combustível gasto o que qualquer potência nuclear civilizada (Japão, França, Reino Unido) faz: reciclá-lo. Até 90% do urânio e do plutônio podem ser e são quimicamente recuperados e reutilizados, reduzindo drasticamente o lixo altamente radioativo e, para efeitos práticos, eterno. O problema da reciclagem é que ela produz plutônio puro, do qual os "terroristas" poderiam se apossar (e, claro, enfiar no cu depois, porque não teriam tecnologia para fazer nada com ele).
Passei, assim, a defender (como Lovelock) a energia nuclear como uma opção de transição: uma tecnologia dominada, que poderia substituir grande parte dos combustíveis fósseis (e das hidrelétricas assassinas de bagres) durante um período finito, enquanto os renováveis dos nossos sonhos não fossem competitivos.
Minhas ilusões atômicas foram, no entanto, todas desfeitas na semana passada. O relatório do Grupo 3 do IPCC, divulgado em Bangkok na última sexta, mostra que a energia nuclear tem reservado para si um papel pífio na mitigação do efeito estufa. A projeção é que ela cresça dos atuais 16% da matriz energética mundial para catapriscantes 18% (!!) em 2030. Um crescimento, portanto, de 2 pontos percentuais em 23 anos.
Pretty awesome, uh? Que tal se compararmos com as renováveis dos nossos sonhos? Elas hoje têm 18% da matriz e chegarão a 35% em 2030. (Claro, tem um truque: consideraram hidrelétricas como "renováveis", mas você já captou o espírito da coisa.)
Entre todas as opções de mitigação avaliadas pelo IPCC, a energia nuclear só ganha em potencial de mitigação da CCS (captura de carbono), que um dos cientistas do painel classificou de "ficção científica" no futuro próximo.
Toda a briga dos países nucleares para que essa tecnologia entrasse como alternativa climaticamente correta foi, assim, uma vitória de pirro.
Portanto, o lobby atômico precisa de outra bandeira que não seja a de salvação do clima se quiser salpicar o planeta de reatores.
Ninguém ainda pediu minha opinião, mas eu conheço um bagre lá em Rondônia que ficaria uma gracinha numa propaganda de TV.

3 Comments:

Blogger Daniel Doro Ferrante said...

Paranthropus!

Já estava com saudades dos seus posts: Pouca gente tem tamanho "bom humor"... ou será que deveria chamar de ironia-sarcasmo?! O que quer que seja, sempre ajuda... :-)

Quanto às Usinas Nucleares... confesso que deveria saber mais sobre essa questão do que o sei atualmente. Porém, quando vc vê o relatório que vc listou, o grande truque está nas palavras "projeção de crescimento". A pergunta que fica na minha cabeça é a seguinte: O que aconteceria se a matriz nuclear crescesse proporcionalmente de modo muito mais expressivo? Será que, aí, a tecnologia nuclear não ajudaria mais efetivamente?

Essas questões ninguém QUER responder... é, como sempre, um problema político: Deus-o-livre alguém descubra que a tecnologia nuclear pode contribuir de forma extremamente significativa... é a "proliferação nuclear" legitimizada pelo ambientalismo! E, como vc mesmo observou, alguns países não vão gostar disso... e não vai ser só os USA... :-( Muito desse "insucesso" é proposital.

Dos ambientalistas que eu conheço (incluindo Físicos Climatologistas), já existe um bom grupo pró-tecnologia nuclear -- algo que eu não esperaria que pudesse acontecer. Aliás, segundo os "sabichões" do meio, essa é a 'única' alternativa viável: O grande que ninguém debate está absolutamente bem definido: "Dado o tamanho crescimento da população humana mundial, como pretendemos satisfazer as nossas necessidades energéticas, lembrando que estamos sujeitos ao vínculo de que a quantidade de energia que pode ser "gerada" é FINITA?!!!"

Essa é a questão REALMENTE SÉRIA que NINGUÉM quer morder... claro, ela é extremamente impopular e não arrebanha votos! :-(

O que vai acontecer quando começarem a estudar o problema da viabilidade energética do planeta é que, com sorte, vão descobrir uma ciência chamada complexidade ou fenômenos escaláveis! É só aí que vão notar que a grande maioria das "energias alternativas" NÃO escalam para soluções mais globais: Elas podem servir para um país ou outro, mas certamente não vão ser respostas robustas. E é aí que mora grande parte do truque: Alguns países vão poder "economizar" mais que outros... e aí, como fica o negócio?!

Não vai ser uma cena bonita de se assistir... :-(

Um abração, []'s!

6:51 AM  
Blogger A simplicista... said...

É o grande defensor dos bagres e dos oprimidos!

10:11 AM  
Blogger Marky Brito said...

Aloww-ow-ow-ow...!!!! (eco longo)

Onde estão o Greenpeace e o DiaboDiaboEfe???

Nada de PAC no site deles.

No site do Greenpeace tem uma mulher segurando uma lâmpada.

No site do WWF pedem para que eu seja amigo da onça.

Onde vamos parar...

2:33 PM  

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