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Apenas uma relíquia do Plioceno...

domingo, dezembro 04, 2005

O polegar do panda, a garra do Archaeopteryx e a macroevolução

SE STEPHEN JAY GOULD estivesse vivo, não teria deixado de dedicar uma de suas colunas na Natural History ao paper simplório mas sensacional publicado na última sexta-feira por um grupo teuto-americano na revista Science. Os autores ao mesmo tempo descrevem o décimo exemplar de Archaeopteryx e apontam para dois detalhes reveladores no pé do paleopassarinho mais antigo do mundo: 1) ele não tem hálux; 2) ele tem uma grande garra retrátil.

Não se trata de fetichismo de paleontólogo, diga-se de saída. O pé do Archaeopteryx é a chave para entender muita coisa na ligação cada vez mais visceral entre aves modernas e um certo grupo de dinossauros, os deinonicossauros ("lagartos de garras terríveis"), turma à qual pertencem o (injustamente) glorificado Velociraptor, o Deinonychus, o Dromaeosaurus e outros pequenos dinos carnívoros bípedes. De fato, o que o alemão Gerald Mayr (sem parentesco com o outro Mayr, Ernst) e seus colegas propõem é que essa divisão não exista mais. Ave é dino, dino é ave.

"Como assim, puta paga?", você deve estar se perguntando. Ocorre o seguinte: o Archaeopteryx, membro fundador da classe Aves, era considerado um elo perdido entre aves e dinossauros devido a uma série de detalhes de sua anatomia que me dá sono só pensar em enumerar. As patas do bichinho, no entanto, eram -- até agora -- consideradas avianas. Em especial a presença do tal hálux, que é aquele "polegar" virado para trás que as galinhas usam para agarrar no poleiro. Pois bem: Mayr olhou bem para o décimo A'pteryx, o chamado "Espécime de Termópolis" (assim batizado em homenagem à cidade de Wyoming onde o fóssil se encontra exibido), e viu que o tal hálux não é exatamente voltado para trás. E que o segundo dedo do passarinhossauro NA VERDADE traz uma garra assassina, menor mas funcionalmente idêntica à do Velociraptor (se você assistiu Jurassic Park, sabe do que estou falando; se não assistiu, está fazendo o que neste blog?).

E daí? Daí muitas coisas. A presença da garra extensível não é exatamente um traço único do Archaeopteryx. Ela já havia sido demonstrada em Rahonavis, um grupo de ave bem mais derivado e recente (lembre-se de que Solnhofen, de onde vieram todos os arqueoptérixes -- acabo de inventar o plural --, é uma pedreira do Jurássico, de 150 milhões de anos, enquanto o Rahona é do Cretáceo). E o hálux do Archaeopteryx não é exatamente inexistente, mas transicional; certamente não servia para se empoleirar, o que sugere que nosso paleopassarinho favorito provavelmente era um bicho de solo, como outros dinossauros, não arborícola. A grande conclusão de Mayr et al. é o cladograma montado no paper, que apaga de vez a distinção entre aves basais e deinonicossauros. Eles dizem que Aves é uma classe difilética, ou seja, seus ramos mais antigos não compartilham um ancestral comum. O que existe é Aves 1 e Aves 2, sendo que na primeira categoria entram Archaeopteryx, Rahonavis e deinonicossauros primitivos, como o Troodon, e na segunda estão Velociraptor e Confucisornis, considerada "ancestral" das aves existentes hoje.

Mas o mais legal do paper mesmo é a demonstração de que a evolução das espécies é uma rampa (cronológica, por favor!), não uma escada. Em vez de "quebras" abruptas no registro fóssil, nas quais uma espécie "se transforma" em outra ou uma classe "se transmuta" em outra assim, como por mágica, o que realmente ocorre é uma transição contínua, sem saltos misteriosos, algo que só nos é dado ver em raríssimos e felicíssimos casos, como o Archaeopteryx, que não é pássaro nem dinossauro e é ambos. Dito de outra forma, é a confirmação da máxima darwiniana "Natura non facit saltum".

É difícil para algumas pessoas aceitar esse contínuo evolutivo (Richard Dawkins atacou esse tipo de gente em um ensaio maravilhoso sobre "a mente descontínua"). IDevotos e outros indivíduos de (má) fé insistentemente vêem no mistério da macroevolução -- parte da teoria evolutiva que lida justamente com a origem das espécies -- um sintoma da "falência epistêmica" do darwinismo, para usar a frase-feita favorita do meu amigo Enézio "Design Inteligente" Almeida Filho. O dedo do meio do Archaeopteryx, convenientemente esticado na direção desses néscios, só faz reforçar a grandeza explanativa da visão darwista da vida.

2 Comments:

Anonymous Daniel Doro Ferrante said...

Paranthropus: Esse seu amigo que "chama Jesus de Genézio" aprendeu direitinho o metiêr dele: Palavras "cabulosas" para esconder a ignorância e as inverdades da argumentação. Um sofista quase que de primeira grandeza.

De qualquer modo, a melhor parte de todo esse blá-blá-blá ao redor desse assunto é que ele é absolutamente resolvido num momento crucial: Na hora da morte!

Vc passa uma vida inteira inventando camadas e mais camadas de "pensamentos" pra se esconder dum dos medos mais primordiais da natureza humana... aí, num instante qualquer, "puf!" Não só tudo acaba como, aposto, a resposta pra todas essas questões é revelada... afinal, ou vc acorda "do outro lado"... ou não! ;)

6:55 AM  
Blogger Paranthropus said...

Caralho, Daniel, que comentário mais Tim Burton!

7:22 AM  

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