Ideias antigas

Fósseis, árvores, minorias, filhos e outras coisas fora de moda

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Apenas uma relíquia do Plioceno...

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Balada do caramujo


MEU PRIMEIRO encontro com o Achatina fulica em Brasília aconteceu no fim do ano passado. Em dias de sol, mais de uma dúzia de exemplares do caramujo gigante africano podem ser vistos desfilando em câmera lenta no muro da casa dos meus pais. Por onde andam, em vez do fio de baba prateada típicos de gastrópodes, deixam manchas escuras que parecem merda. A metáfora é perfeita.




Venho à capital com uma certa freqüência e gosto de observar os bichos no quintal. Atesto, e meu pai confirma, que o Achatina fulica só invadiu a casa da minha mãe no ano passado. Mas essa espécie invasora, trazida para o Brasil nos anos 1980 para substituir o escargot (definitivamente, uma idéia de molusco), já é avistada em Brasília desde 2001. Estima-se que tenha chegado aqui no início da década, provavelmente subindo a partir do Sudeste. Quando eu me mudei de Brasília, há 15 anos, os únicos gastrópodes que se encontrava por aqui eram lesmas (enormes) e caracóis de jardim. Não posso provar, mas diria que as lesmas do Lago Norte sucumbiram a seu concorrente recém-chegado, voraz, mais bem-armado e sem inimigos naturais. Pude, portanto, testemunhar ao vivo aquilo que os livros-texto de biologia chamam de sucessão ecológica.




Acontece que os caramujos africanos não são a única espécie estranha por aqui. Também têm dado as caras em Brasília - e no quintal dos meus pais - tropas e mais tropas de Callithryx, os populares sagüis. Passam a manhã inteira assoviando entre as árvores e depois somem. Sempre quis ter macacos no quintal, mas passei toda minha infância sem nenhum sinal deles nas imediações. Os sagüis também chegaram nesta década. Minha mãe anda com medo deles: diz a lenda que dois apareceram mortos na casa de Graco Abubakir, morto neste mês por febre amarela adquirida supostamente em Pirenópolis. Minha mãe mora a menos de 10 quilômetros do Parque Nacional de Brasília, e não há nenhuma barreira óbvia ao trânsito de primatinhas daqui a reservatórios silvestres do vírus.




É estranho acompanhar mudanças ambientais em tempo real. Embora eu possa imaginar por que os caramujos se instalaram aqui, só posso especular sobre os sagüis. Se me pedissem para chutar, diria que os macaquinhos ficaram sem casa depois que o entorno do Lago Paranoá, que abrigava vastos trechos de cerrado, foi loteado e ocupado por posseiros das mais distintas classes sociais. À falta de terrenos baldios, eles têm se instalado nos quintais das pessoas, muitos deles com mangueiras e outras árvores capazes de sustentá-los.




Tudo isso aconteceu em menos de 15 anos.




A cada visita, eu assisto horrorizado ao fim de um pedaço de Brasília. A ocupação do entorno, negócio próspero que alimenta os Rorizes e os Argelos e estimula a classe média a criar invasões que serão eventualmente legalizadas segundo a velha máxima nacional do fato consumado, tem criado uma bomba-relógio cujo pavio eu vejo queimar mais e mais. As zonas de mananciais estão virando favelas, ameaçando o futuro abastecimento de água de uma cidade que não é conhecida exatamente pelas chuvas constantes. O Plano Piloto é cada vez mais um lugar de carros. Como o transporte público é virtualmente inexistente (e discriminado pelos bacanas como "coisa de pobre"), as famílias crescem em número de carros à medida que crescem em número. Só na casa da minha mãe são cinco. Um por adulto. O resultado é que dia desses li no Correio Braziliense uma manchete que jamais imaginaria ler num jornal de fora de São Paulo: algo que tinha a ver com motos e faixa exclusiva de ônibus.



Certo estava Bolívar quando disse que a única coisa a fazer na América do Sul é emigrar.